
As curiosidades da comida coreana são o tipo de assunto que começa com um vídeo aleatório e termina com um bilhete de avião na tela. Aconteceu comigo: pesquisando sobre culinária asiática para o blog, fui entrando cada vez mais fundo nos pratos tradicionais da Coreia do Sul e descobri que cada receita carrega séculos de história, filosofia e até hierarquia social por trás do sabor.
Não é exagero dizer que a gastronomia coreana é uma das mais densas em significado cultural que existem. Ela tem conceitos filosóficos próprios, patrimônios reconhecidos pela UNESCO, pratos que passaram de mesas imperiais a barracas de rua e uma lógica de equilíbrio nutricional que a medicina tradicional coreana pratica há milênios — muito antes de qualquer nutricionista colocar isso em palavras.
Ainda não fui à Coreia do Sul, mas está definitivamente na minha lista e boa parte dessa vontade veio de entender o que está escondido por trás de cada prato. Se você também ainda não foi, espero que ao menos uma dessas curiosidades faça o destino subir no seu ranking de viagens.
1. O kimchi tem mais de 2.000 anos de história e é Patrimônio Cultural Imaterial da UNESCO
O kimchi é o prato mais representativo da Coreia do Sul. A descrição padrão (“legumes fermentados e picantes”) está tecnicamente correta, mas não conta quase nada.
Feito principalmente com acelga napa e rabanete, temperados com pimenta vermelha gochugaru, alho, gengibre e pasta de frutos do mar fermentados, o kimchi existe na culinária coreana há mais de dois milênios. Surgiu como solução prática para conservar vegetais durante os invernos rigorosos da Península Coreana, quando meses sem cultivo exigiam estoques de longa duração.
Em 2013, a UNESCO inscreveu o kimjang — a tradição coletiva de preparar grandes quantidades de kimchi no outono, geralmente entre novembro e dezembro, para consumo ao longo do inverno — na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
Em dezembro de 2015, a Coreia do Norte fez o mesmo reconhecimento, tornando o kimchi o segundo patrimônio imaterial a ser inscrito simultaneamente pelos dois países coreanos, segundo a Wikipedia e sendo o primeiro a canção folclórica Arirang.
Hoje, existem mais de 200 variações documentadas da receita, variando conforme a região e a estação, segundo a Korea Friends. E um detalhe que costumo usar para explicar o quanto o kimchi está enraizado na cultura é quando coreanos posam para fotos, dizem “kimchi!” em vez de “cheese!” justamente por ter o mesmo motivo fonético.
Onde aprender mais sobre kimchi em Seul
O Kimchi Museum fica no Coex Mall, no bairro de Gangnam, e oferece exposições sobre as variações regionais, o processo de fermentação e a história do prato. É uma boa porta de entrada para quem quer ir além do sabor e entender o que torna esse acompanhamento tão central na comida tradicional coreana.
2. A culinária coreana segue uma filosofia milenar que trata comida como medicina
Existe um princípio que estrutura toda a lógica da gastronomia coreana e chama-se yaksikdongwon (약식동원), expressão que em tradução literal significa “comida e medicina têm a mesma origem”. O conceito vem da medicina tradicional coreana e, segundo fontes acadêmicas e culinárias, orienta a seleção de ingredientes e combinações de sabores desde pelo menos o período das Três Reinos (57 a.C. – 935 d.C.).
Na prática, isso se traduz em algo concreto: o sistema das cinco cores. Segundo o site de gastronomia AFAR, baseado em entrevista com a food blogger coreana Kim Chan-Sook, o banchan deve incluir as cinco cores associadas à filosofia Ohaeng (五行, os Cinco Elementos) — verde, vermelho, amarelo, branco e preto —, cada uma correspondendo a um órgão do corpo e a uma direção cardinal. Não é apenas estética, é terapêutico!
É por isso que uma mesa coreana bem servida parece tão visual e nutricionalmente equilibrada ao mesmo tempo. O bibimbap — talvez o prato coreano mais reconhecível fora da Coreia — é o exemplo mais claro dessa lógica: vegetais de cinco cores diferentes dispostos em seções sobre o arroz, com ovo, carne e gochujang. Cada ingrediente representa um elemento e cumpre uma função dentro do sistema.
3. Comer sozinho ainda é culturalmente incomum na Coreia — mas os mukbang mudaram isso
Pratos como o samgyeopsal (panceta de porco grelhada diretamente na chapa embutida na mesa) e o jeukseok tteokbokki (tteokbokki preparado na panela compartilhada à mesa) foram literalmente projetados para grupos.
A refeição coreana tradicional é uma experiência coletiva desde a origem — e ir sozinho a um restaurante coreano ainda pode gerar estranhamento em locais mais tradicionais, especialmente fora das grandes capitais.
O fenômeno contemporâneo que alterou essa lógica tem nome: mukbang (먹방), uma palavra que combina os termos coreanos para “comer” e “transmissão ao vivo”. São vídeos ou lives em que uma pessoa come grandes quantidades de comida enquanto interage com a audiência — algo que surgiu justamente como resposta ao aumento de lares unipessoais em Seul e à solidão de comer sozinho nas grandes cidades.
A palavra foi incorporada ao dicionário Merriam-Webster em 2021, tornando-se um dos poucos termos culinários de outra língua a entrar no vocabulário inglês formal tão rapidamente.
4. A variedade de pratos típicos coreanos vai muito além do churrasco e do bibimbap
Reduzir a comida típica da Coreia do Sul a dois ou três pratos seria como resumir a culinária italiana à pizza!
A culinária coreana é profundamente regionalizada: a Província de Jeolla, no sudoeste do país, é famosa dentro da própria Coreia por servir o maior número e variedade de banchan em uma única refeição, às vezes chegando a mais de 20 pratinhos diferentes, segundo o site KimEcopak. Isso por si só já diz muito sobre a complexidade gastronômica do país.
- Guk e tang: caldos e sopas servidos individualmente em toda refeição coreana, variando de leves a intensamente condimentados. O doenjang guk, de pasta de soja fermentada, é um dos mais cotidianos.
- Jjigae: ensopados densos como o sundubu-jjigae (tofu sedoso com frutos do mar) e o kimchi-jjigae — este último, feito com kimchi mais fermentado e porco, considerado o prato de conforto por excelência da culinária coreana.
- Naengmyeon: macarrão de trigo sarraceno servido em caldo gelado, consumido especialmente no verão, com raízes na Dinastia Joseon (1392–1897) e muito associado à culinária de Pyongyang.
- Hanjeongsik: refeição coreana formal completa, com dezenas de pratos servidos simultaneamente — a versão mais elaborada do sistema banchan, servida em restaurantes especializados e em ocasiões especiais.
- Jeon: panquecas salgadas de frutos do mar, vegetais ou carne, culturalmente associadas a dias de chuva e a festividades como o Chuseok (festival da colheita).
Essa diversidade tem raiz geográfica: montanhas ao norte, mar em três lados e quatro estações bem marcadas obrigaram cada região da península a desenvolver técnicas próprias de preservação e ingredientes específicos ao longo de séculos.
5. Os banchan carregam um código de hierarquia social que durou séculos na Coreia
Qualquer pessoa que entre em um restaurante coreano se surpreende com a quantidade de pratinhos coloridos que chegam antes mesmo de fazer o pedido principal — e ficam sendo repostos sem custo adicional durante toda a refeição. Essa generosidade tem uma história longa e específica.
Durante a Dinastia Joseon (1392–1910), o número de banchan servidos à mesa era um código preciso de status social, regulado por protocolo da corte. A mesa do rei recebia exatamente 12 banchan — o único número par permitido, já que números ímpares eram considerados mais positivos para o povo comum. Nobres recebiam nove; famílias comuns, entre três e cinco.
O hábito de recarregar os banchan gratuitamente tem uma explicação interessante: no século XX, durante períodos de dificuldade econômica, o arroz branco era muito mais caro do que o kimchi e os acompanhamentos.
Restaurantes passaram a oferecer repetições livres de banchan justamente para que o cliente pudesse complementar a refeição sem gastar mais e foi um costume que permanece até os dias atuais.
Como pedir mais banchan sem passar por situação constrangedora
A frase é simples: banchan juseyo (반찬 주세요), literalmente “banchan, por favor”.
A etiqueta local sugere se servir em pequenas quantidades por vez e não tratar os pratinhos como aperitivos a serem finalizados antes do prato principal.
6. O tteokbokki nasceu de um acidente culinário em 1953 e virou símbolo do pós-guerra
O tteokbokki — cilindros de arroz cozidos em molho apimentado de gochujang — é hoje um dos street foods mais consumidos e exportados da Coreia do Sul. Mas a versão que conhecemos tem uma origem datada com precisão: 1953, no bairro de Sindang-dong, em Seul, criada por uma mulher chamada Ma Bok-rim.
O que existia antes de Ma Bok-rim era completamente diferente. O gungjung tteokbokki (궁중떡볶이, literalmente “tteokbokki da corte real”) era um prato nobre da Dinastia Joseon, registrado em livros de receitas do século XIX, feito sem pimenta, temperado com molho de soja, óleo de gergelim, carne e vegetais — elegante, suave e reservado às classes altas.
A virada aconteceu quando Ma Bok-rim, durante a abertura de um restaurante chinês em Sindang-dong, acidentalmente derrubou um pedaço de tteok em um molho de jajangmyeon (macarrão de pasta de feijão preto).Ao provar, percebeu que o arroz absorvia bem um molho intenso — e começou a experimentar combinações com gochujang. Ela montou uma banca simples com fogareiro a carvão numa viela do bairro.
Seul tinha acabado de sair da Guerra da Coreia, faminta e reconstruindo tudo do zero, o tteokbokki quente e barato encontrou seu momento exato, segundo o site Taste Korean Food. Ma Bok-rim morreu em 2011, aos 91 anos, e a família ainda mantém restaurante em Sindang-dong.
Onde comer tteokbokki em Seul hoje
Sindang-dong continua sendo o endereço de referência — a área é conhecida como “Tteokbokki Town” e tem dezenas de restaurantes especializados, incluindo o da família de Ma Bok-rim.
Para quem prefere a versão de rua mais casual, o Gwangjang Market no centro de Seul é outro ponto de referência gastronômica, com vendedores de bindaetteok, gimbap e yukhoe num ambiente de mercado coberto que funciona há décadas.
7. O jesa: o ritual ancestral coreano que tem regras precisas sobre o que pode e o que não pode ir à mesa
Uma das dimensões menos conhecidas da culinária coreana fora da Coreia é o jesa (제사) — o ritual de homenagem aos ancestrais, praticado nas datas de aniversário de morte dos familiares e nas grandes festividades como o Seollal (Ano Novo Lunar) e o Chuseok (festival da colheita). O jesa tem raízes que remontam à Idade do Bronze na Península Coreana e foi formalizado com regras confucionistas rígidas durante a Dinastia Joseon (1392–1910).
O que torna o jesa especialmente interessante na gastronomia são as proibições. Existem alimentos estritamente banidos da mesa ritual — não por questões nutricionais, mas por significado simbólico.
A comida cerimonial coreana, são proibidos: alho, pimenta vermelha e pêssegos (considerados repelentes de espíritos, tornando a comida inapropriada para receber os ancestrais), além de peixes sem escamas (associados à impureza) e qualquer peixe cujo nome termine com a sílaba “chi” em coreano — como myeolchi (anchova), kkongchi (peixe-espada do Pacífico) e galchi (peixe-espada) —, historicamente vistos como alimentos de baixo status social.
A disposição dos alimentos na mesa também segue um protocolo de quatro fileiras: na primeira, arroz, vinho de arroz, colher e pauzinhos; na segunda, sopas e bolos de arroz; na terceira, carnes e peixes (peixe ao leste, carne ao oeste); na quarta, kimchi (sem pimenta vermelha e vegetais). As Frutas são colocadas na parte de trás em quantidades ímpares.
A ligação surpreendente entre o jesa e a origem do bibimbap
Uma das teorias mais documentadas sobre a origem do bibimbap sugere que ele nasceu justamente do jesa: após o ritual, os alimentos oferecidos aos ancestrais eram reunidos em uma tigela de arroz, misturados e consumidos pelos participantes da cerimônia.
Essa origem é citada no blog Paradise of Food e reflete um padrão recorrente na culinária coreana: pratos de alto significado cultural migrando, com o tempo, de contextos rituais para o cotidiano popular — exatamente o mesmo caminho que o tteokbokki percorreu da mesa da corte até as barracas de rua de Sindang-dong.
Por que a gastronomia coreana está conquistando o mundo — além do K-pop e dos doramas
O crescimento do interesse pela comida coreana no mundo é real e mensurável. A série documental Culinary Class Wars (흑백요리사), lançada pela Netflix em 2024, se tornou sucesso global e levou nomes de chefs coreanos para audiências que nunca tinham ouvido falar de hanjeongsik.
O gochujang — pasta fermentada de pimenta vermelha, base de sabor de boa parte da culinária coreana — passou a aparecer com frequência em receitas de chefs ocidentais reconhecidos a partir de 2022. E a palavra mukbang entrou no dicionário Merriam-Webster em 2021.
Mas o que sustenta esse interesse além da tendência é a profundidade. Quando você descobre que o kimchi tem 2.000 anos de história e é patrimônio da UNESCO, que os banchan seguiam um código de realeza, que o tteokbokki nasceu de um acidente numa Seul em ruínas, que cada cor num prato de bibimbap representa um elemento filosófico — a comida coreana deixa de ser trend e vira janela para uma cultura inteira.
É exatamente esse tipo de conexão entre passado e presente que me faz querer ir à Coreia do Sul: não só para comer, mas para entender e sentir a cultura!
Do mesmo jeito que exploramos aqui no blog como civilizações antigas continuam moldando destinos de viagem, a gastronomia coreana prova que a história mais fascinante de um lugar costuma estar escondida num prato do dia a dia.
E você — qual dessas curiosidades te surpreendeu mais? Já sabia da origem do tteokbokki ou do sistema de banchan na corte joseon?
Conta nos comentários se esse texto fez a Coreia do Sul subir na sua lista de viagens e compartilha com alguém que vai querer embarcar junto.



